INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, o handebol de alto nível tem experimentado uma transformação tática significativa, em que o caráter coletivo do jogo, as interações entre jogadores e as decisões situacionais ganham protagonismo. A literatura recente aponta para uma transição em direção a modelos complexos e adaptativos de jogo, nos quais a organização ofensiva não é apenas predeterminada por um esquema fixo, mas emerge dos arranjos dinâmicos entre armadores, pivôs e pontas, dos condicionamentos defensivos do adversário e das variáveis contextuais (tempo, placar, fadiga).

Em 2016, uma mudança normativa introduziu a possibilidade de substituição rápida goleiro ↔ jogador de linha (jogo sem goleiro, “gol vazio”), criando a opção tática do ataque 7×6. Essa alteração passou a permitir às equipes a formação ofensiva com superioridade numérica, mas também impôs novo dilema de risco/retorno. A adoção dessa regra abriu janelas táticas adicionais, exigindo dos treinadores a capacidade de decidir quando e como explorar o 7×6, equilibrando ganho potencial com a vulnerabilidade de sofrer gols em desvantagem numérica.

Paralelamente, os avanços metodológicos em análise de desempenho têm permitido uma visão mais fina da circulação de bola e das sinergias ofensivas. Técnicas como análise de redes de passes (network analysis) têm sido aplicadas no handebol para quantificar o papel de cada jogador como nó de interação e mapear padrões de conectividade em diferentes formações táticas. Da mesma forma, o uso de coordenadas polares (polar coordinates) tem sido empregado para inferir relações de ativação/inibição entre comportamentos táticos — por exemplo, quais ações precedem finalizações eficazes em determinados contextos. Essas técnicas revelam que não basta contar passes ou arremessos: importa como e quando esses movimentos ocorrem no contexto global do jogo (posse de bola).

A conjugação dessas duas correntes — a introdução tática do 7×6 e o refinamento analítico da circulação coletiva — impõe desafios e oportunidades para a evolução do ataque no handebol. Treinadores e analistas demandam maior fundamentação empírica para orientar estratégias ofensivas contemporâneas: quais momentos são mais apropriados para adotar 7×6, como organizar a rede de passes para reduzir riscos, quais indicadores simples capturam qualidade de posse de bola e quais variações táticas emergem em campeonatos de elite.

Objetivou-se com o referido estudo, analisar criticamente e sintetizar as evidências publicadas entre 2015 e 2025 acerca da evolução tática coletiva do ataque no handebol, com vistas a compreender, comparar e avaliar as transformações táticas estruturais, dinâmicas ocorridas no ataque.

MÉTODO

A presente revisão sistemática foi conduzida em conformidade com as recomendações do PRISMA 2020, buscando assegurar transparência, reprodutibilidade e rastreabilidade metodológica. O processo de revisão foi estruturado em quatro etapas principais: identificação, seleção, elegibilidade e inclusão, conforme descrito a seguir.

1. Estratégia de busca e bases consultadas

A busca sistemática foi conduzida entre 1º de janeiro de 2015 e 16 de outubro de 2025, considerando o fuso horário de Recife (UTC-3). Foram consultadas fontes de informação científica primárias e secundárias, abrangendo bases de dados formais, portais de editoras científicas e literatura cinzenta qualificada, conforme descrito a seguir: Bases de dados formais: PubMed/PMC (US National Library of Medicine), principal repositório internacional da área biomédica, selecionado por sua ampla cobertura de estudos em saúde, desempenho humano e fisiologia do exercício. Portais de editoras científicas: MDPI (especialmente os periódicos Applied Sciences e Sustainability), Frontiers e Taylor & Francis Online, escolhidos por agregarem revistas revisadas por pares com escopo em Sports Sciences, Performance Analysis e Human Movement.

Literatura cinzenta qualificada: ResearchGate, utilizada para rastrear preprints, anais de congressos científicos (como EHF Scientific Conference, FIEP Europe e International Conference on Coaching), dissertações e relatórios técnicos não indexados em bases formais, desde que apresentassem dados primários ou secundários de relevância científica. A busca combinou descritores controlados e termos livres em inglês, utilizando operadores booleanos e truncamentos para maximizar a sensibilidade da pesquisa. A estratégia completa ocorreu da seguinte forma: ("handball" OR "team handball") AND ("offensive" OR "attack") AND ("tactics" OR "positional" OR "passing network" OR "polar coordinates" OR "7 vs 6" OR "empty goal").

Para aprimorar a precisão, foi empregada a filtragem automática de publicações entre 2015 e 2025, estudos com seres humanos adultos, e idiomas inglês, espanhol e português.

Critérios de inclusão

Foram elegíveis os estudos que: (1) Analisaram comportamentos táticos ofensivos coletivos em partidas ou simulações de handebol de alto nível (nível profissional, seleções nacionais, ligas europeias ou competições continentais); (2) Envolveram atletas adultos (≥18 anos) de ambos os sexos; (3) Utilizaram dados empíricos observacionais, experimentais ou analíticos; (4) Apresentaram resultados quantitativos ou qualitativos referentes à organização ofensiva, circulação de bola, decisão tática, uso do 7×6, rede de passes, coordenação ofensiva ou eficácia de finalização; (5) Foram publicados em periódicos revisados por pares ou anais acadêmicos reconhecidos.

Critérios de exclusão

Excluíram-se estudos que: (1) Focaram exclusivamente em aspectos defensivos, biomecânicos isolados, ou fisiológicos sem relação direta com o comportamento coletivo ofensivo; (2) Investigaram categorias de base (infantil, juvenil, sub-18) sem extrapolação ao contexto adulto; (3) Foram publicados antes de 2015; (4) Não apresentaram dados ou descrição metodológica mínima; (5) Foram duplicados entre bases (após verificação manual via título/DOI).

Processo de triagem e seleção dos estudos

A triagem foi conduzida em duas etapas independentes: (1) Triagem inicial por título e resumo: dois revisores realizaram leitura exploratória dos resultados exportados das bases. Foram excluídos textos fora do escopo temático ou duplicados. (2) Leitura integral e avaliação de elegibilidade: os artigos pré-selecionados foram lidos na íntegra, avaliando-se objetivos, amostra, método e resultados. Estudos que não abordavam diretamente a dimensão ofensiva coletiva foram excluídos nesta fase.

A concordância entre revisores foi avaliada por consenso. Discrepâncias foram resolvidas por meio de discussão e reanálise dos critérios.

Figura 1. Diagrama de fluxo PRISMA mostrando os estudos identificados, incluídos e excluídos.
Figura 1Diagrama de fluxo PRISMA mostrando os estudos identificados, incluídos e excluídos. 

Extração e organização dos dados

A extração foi realizada manualmente em planilha estruturada (Microsoft Excel® 2021), contendo as seguintes variáveis:

Autores e ano de publicação; País ou contexto competitivo (e. g., EHF, Mundial, Ligas nacionais); Amostra e nível competitivo; Tipo de estudo (observacional, revisão, análise notacional, modelagem, estudo experimental); Instrumentos e métricas utilizadas (análise de vídeo, coordenadas polares, redes de passes, indicadores de eficácia); Principais resultados tático-coletivos; Conclusões sobre implicações práticas.

Os dados foram sintetizados em tabelas comparativas (Tabela 1) e em análise temática, classificando os achados segundo quatro eixos: (a) impacto da regra do 7×6; (b) padrões de rede de passes; (c) marcadores de eficácia ofensiva; (d) avanços metodológicos de análise.

Avaliação da qualidade metodológica e risco de viés

A qualidade metodológica foi avaliada com base na escala adaptada de para estudos observacionais e revisões narrativas, considerando clareza de objetivos, descrição de variáveis, validade interna e aplicabilidade externa.

O risco de viés variou de baixo a moderado, principalmente devido à natureza observacional ecológica da maioria dos estudos e à heterogeneidade de métricas (diferenças de definições entre “ataque posicional”, “fase ofensiva” e “posse de bola”).

Para assegurar confiabilidade, apenas estudos com métodos explícitos e dados reprodutíveis foram incluídos na síntese interpretativa final.

RESULTADOS

Tabela 1Estudos incluídos entre (2015–2025) sobre ataque coletivo no handebol. 
Autor/Ano Contexto Foco tático Método Principais achados
Iusepolsky Regra 2016 Empty-goal e soluções táticas Revisão Regra abriu múltiplas soluções 7×6; impactos estratégicos, exigindo gestão de risco/tempo.
Prudente Euro 2020 Uso 7×6 Observacional Uso influenciado por tempo de jogo e parcial; Portugal foi o maior usuário; eficácia situacional.
Macedo Elite Risco de sofrer gol vazio Observacional Quantifica risco de sofrer “empty-net” e caracteriza contextos de uso do E. G. (4:1).
Prudente Euro/WCh Comportamento no 7×6 Observacional (Euro/WCh) Padrões de equipe/jogador no 7×6; mapeia frequências, decisões e eficiência.
Branco Euro 2022 7×6, eventos críticos Análise associativa Perdas técnicas em 7×6 associam-se a gol direto do oponente; equipes de alto nível usam menos 7×6.
Korte Euro 2018 Redes de passes Análise de redes Armadores (central e meias) variações por formação; profundidade de circulação da bola ligada à criação de arremesso.
Ferrari Mundial Efetividade ofensiva Notacional Vencedores ≠ perdedores em processo ofensivo (qualidade da finalização, perdas).
Vaz et al. EHF Champions League Evolução finalistas Observacional Trajetórias ao longo da competição; diferenças entre campeões e vice em padrões ofensivos.
Font et al. Elite Coordenadas polares Análise tática Variáveis que influenciam sucesso por fases do jogo; interações ataque-defesa.
Nicolosi Elite Decisão situacional Cognição aplicada Nível competitivo distingue processamento de probabilidades situacionais (implicações para ataque).
Espoz-Lazo Conceitual Sistemas dinâmicos Ensaio/estado da arte Enfatiza comportamentos emergentes e auto-organização no ataque moderno.
Wildman Modelagem Interação tática Modelos/anais Propostas de modelagem da interação e coleta digital para explicar mecanismos do jogo.

Esta revisão sistemática identificou 12 estudos publicados entre 2015 e 2025 que analisaram, sob diferentes abordagens, a evolução tática coletiva do ataque em equipes de handebol. A síntese dos achados permitiu organizar os resultados em quatro grandes eixos temáticos: (1) a influência da regra do goleiro-linha (7×6) e seus impactos estratégicos; (2) a caracterização da estrutura de rede de passes e sua relação com a eficácia ofensiva; (3) indicadores de efetividade e eficiência ofensiva em competições internacionais; e (4) novos modelos analíticos aplicados à compreensão da dinâmica coletiva ofensiva.

Regra do 7×6 e a transformação estrutural do ataque

A introdução da regra de substituição livre entre goleiro e jogador de linha, em 2016, representou o marco mais expressivo na evolução tática do ataque nas últimas décadas. Essa modificação permitiu que as equipes utilizassem sete jogadores de linha e nenhum goleiro, criando superioridade numérica momentânea no setor ofensivo. Segundo os autores, a mudança ampliou as possibilidades de ataque posicional prolongado, mas também elevou o risco de sofrer gols em situações de transição após perdas técnicas.

Estudos subsequentes confirmaram que o uso do ataque 7×6 tornou-se mais frequente em momentos de desvantagem no placar ou nos minutos finais das partidas. No entanto, Macedo et al. analisaram 380 partidas de campeonatos internacionais e verificaram que o uso do 7×6 foi condicional ao contexto situacional, sendo mais eficiente quando implementado em ataques estruturados e com baixa taxa de erro de passe. Contudo, quando mal executado, a tática se associou a maior incidência de gols sofridos em gol vazio, corroborando a necessidade de planejamento criterioso para sua utilização.

Estudo realizado por Prudente et al. demonstraram ainda que equipes de alto rendimento, como Dinamarca, Espanha e França, fazem uso circunstancial e seletivo do 7×6, adotando-o em momentos estratégicos de domínio posicional, enquanto seleções intermediárias o utilizam como recurso de urgência. Tais achados reforçam a ideia de que a evolução do ataque moderno se ancora não apenas em novas estruturas, mas principalmente em processos decisórios situacionais.

Redes de passes e conectividade tática

O segundo eixo refere-se à estrutura de rede de passes como representação da interação ofensiva. Já Korte e Lames aplicaram a análise de redes sociais ao Campeonato Europeu de Handebol de 2018 e verificaram que armadores centrais e laterais ocupam posições de alta centralidade, funcionando como nós articuladores da circulação ofensiva. Equipes mais bem colocadas exibiram redes mais densas, com trajetórias de bola mais longas antes do arremesso e maior envolvimento do pivô na construção das ações táticas coletivas (jogadas).

Esses achados indicam que a eficiência ofensiva não está apenas relacionada ao número de passes, mas à qualidade da conectividade entre os jogadores. Nos achados de Font et al. complementam que redes equilibradas, com distribuição homogênea de interações entre armadores, pivôs e pontas, favorecem a criação de superioridades locais e reduzem a previsibilidade do ataque. Essa compreensão da rede de passes como sistema dinâmico permitiu caracterizar o ataque moderno como auto-organizado, no qual a estrutura emerge das interações contextuais e não de um padrão fixo.

Indicadores de eficácia ofensiva e diferenças entre equipes vencedoras e perdedoras.

A análise comparativa entre equipes vencedoras e perdedoras revelou diferenças significativas em parâmetros de qualidade ofensiva. No estudo de Ferrari et al. observaram, em partidas do Campeonato Mundial, que os vencedores apresentaram menor número de perdas de bola, maior taxa de conversão de arremessos e seleção mais eficiente de zonas de finalização. Além disso, os campeões mantiveram estabilidade nos padrões de ataque ao longo da competição, enquanto os derrotados apresentaram redução progressiva da eficácia.

Os pesquisadores Vaz et al. reforçam esses achados ao demonstrarem que as equipes finalistas da EHF Champions League 2018–2022 adaptaram seus padrões ofensivos ao longo das fases eliminatórias, com incrementos graduais na relação passes/ataque e na utilização de cruzamentos e pivôs duplos. Tais resultados sustentam a hipótese de que a evolução tática ofensiva se caracteriza pela flexibilidade estrutural e pela capacidade de adaptação contextual às demandas competitivas.

Abordagens analíticas avançadas: coordenadas polares e sistemas dinâmicos

A partir de 2020, observa-se o crescimento do uso de métodos analíticos mais sofisticados na compreensão do comportamento coletivo. Onde Font et al. aplicaram o método das coordenadas polares para identificar sequências táticas de sucesso em jogos de elite, destacando que a combinação “cruzamento lateral + penetração central + passe ao pivô” apresenta alta probabilidade de gerar finalizações eficazes. Esse método permitiu mapear relações de ativação e inibição entre ações ofensivas e defensivas, revelando a natureza cíclica das interações de jogo.

Já Espoz-Lazo et al. ampliaram esse entendimento ao proporem o uso da teoria dos sistemas dinâmicos para descrever o ataque como um sistema aberto e não linear, em que a sinergia entre jogadores se ajusta constantemente a perturbações externas. Essa abordagem enfatiza a auto-organização e o emergir de padrões táticos a partir de princípios de variabilidade controlada, o que influencia diretamente o planejamento do treino ofensivo.

A análise integrada dos estudos evidencia que, entre 2015 e 2025, a evolução tática coletiva do ataque no handebol foi marcada por:

  • 1. Adoção situacional do 7×6, equilibrando risco e oportunidade;
  • 2. Profundidade da circulação ofensiva e maior papel estratégico dos armadores e pivôs;
  • 3. Flexibilidade tática adaptativa, baseada em leitura contextual e controle de perdas;
  • 4. Aproximação entre ciência e prática, com o uso crescente de análises baseadas em dados, coordenadas polares e redes de passes.

Esses elementos configuram o que autores denominam de “ofensiva inteligente” — um ataque menos previsível, mais interativo e dependente da integração entre decisão, percepção e execução,.

DISCUSSÃO

A análise dos estudos publicados entre 2015 e 2025 evidencia que a evolução tática coletiva do ataque no handebol foi influenciada simultaneamente por transformações estruturais, cognitivas e analíticas, configurando uma nova lógica de jogo marcada pela flexibilidade tática, gestão situacional do risco e integração entre análise de dados e tomada de decisão.

Impacto estrutural e situacional da regra do 7×6

O principal ponto de inflexão tática na última década foi a adoção da regra do 7×6, que permitiu a substituição do goleiro por um jogador de linha. Essa mudança ampliou o repertório ofensivo e redefiniu o equilíbrio entre risco e recompensa, exigindo que o processo de decisão fosse baseado em variáveis contextuais (tempo de jogo, placar e momento emocional da partida).

Segundo Lusepolsky, Morgulev e Zach ressaltam que a regra provocou uma “revolução estratégica” na gestão do ataque posicional, ao oferecer a possibilidade de superioridade numérica, mas também o perigo de sofrer gols em transição. Já Prudente et al.,, reforçam que o uso do 7×6 é contexto-dependente: tende a ser eficaz em momentos de controle de posse e de vantagem territorial, porém contraproducente quando a equipe apresenta alta taxa de erros técnicos.

Esses resultados corroboram as proposições de Macedo et al., segundo as quais a eficácia do 7×6 depende menos do sistema tático adotado (4:2, 3:3, pivôs duplos) e mais da qualidade da execução e da leitura situacional do jogo. Essa constatação indica um avanço conceitual: a ênfase desloca-se de “como jogar” para “quando jogar”, o que reflete a maturidade tática das equipes de elite.

Além disso, a literatura mostra que equipes com maior estabilidade psicológica e controle da variabilidade contextual tendem a apresentar melhor desempenho nas situações de gol vazio, reduzindo o impacto emocional da vulnerabilidade defensiva,. Esses achados reforçam a interdependência entre as dimensões táticas e cognitivas no ataque moderno.

Redes de passes, centralidade e padrões de conectividade

A análise das redes de passes emergiu como ferramenta poderosa para compreender o ataque coletivo sob a ótica da interação funcional. Korte e Lames demonstraram que a eficácia ofensiva está associada a redes de alta densidade e centralidade distribuída, nas quais os armadores centrais atuam como nós principais, conectando pivôs e pontas em padrões triangulares de circulação.

No estudos de Font et al. confirmaram que a estrutura das redes ofensivas em equipes vencedoras é menos hierárquica e mais colaborativa, o que permite múltiplos caminhos para a finalização. Essa característica reduz a previsibilidade do ataque e aumenta a resiliência tática, pois a equipe mantém capacidade de criar oportunidades mesmo sob pressão defensiva.

Espoz-Lazo, Reyes e Flores, ao aplicar o referencial da teoria dos sistemas dinâmicos, ampliaram esse raciocínio ao considerar o ataque como um sistema auto-organizado, no qual os jogadores adaptam-se continuamente às perturbações externas. Segundo os autores, a auto-organização tática é produto da interação entre constrangimentos ambientais (tempo, espaço, adversário) e intencionalidade coletiva, e não apenas de execuções programadas.

Essa visão está em consonância com a pedagogia dos sistemas complexos aplicados ao esporte, que propõe treinos baseados em princípios de variabilidade e adaptação, capazes de fomentar comportamentos criativos e sinérgicos.

Efetividade ofensiva e flexibilidade adaptativa

Os indicadores de eficácia ofensiva demonstram que as equipes vencedoras se distinguem menos pela quantidade de ataques e mais pela qualidade das decisões e pela eficiência do processo de finalização. Ferrari et al. observaram que os vencedores apresentaram menor proporção de erros técnicos e maior seletividade de zonas de arremesso, o que se traduz em maior conversão de posse em gols.

Vaz et al. complementam que a evolução das equipes finalistas da EHF Champions League sugere um modelo dinâmico de adaptação tática: ao longo da competição, as equipes aumentam o uso de cruzamentos curtos, trocas posicionais e duplos pivôs, reduzindo o padrão fixo de jogo. Essa flexibilidade é uma das marcas do ataque moderno, cuja efetividade depende da leitura constante do contexto e da coordenação temporal entre os setores ofensivos.

A evidência aponta, portanto, para uma transição do ataque baseado em execuções ensaiadas para um ataque orientado por princípios de decisão. Nesse modelo, a organização coletiva é entendida como resultado da interação de intenções individuais coerentes, e não de um script predefinido.

Integração entre análise de desempenho e prática de treino

Os estudos mais recentes destacam a incorporação de metodologias analíticas ao processo de treino. O uso das coordenadas polares Font et al. e da análise de redes de passes permite que treinadores visualizem relações de dependência e sinergia entre ações ofensivas, identificando padrões de sucesso.

Na prática, essa integração de dados vem promovendo uma ciência aplicada ao jogo, na qual o feedback é imediato e o treino se torna um laboratório de tomada de decisão contextualizada. Espoz-Lazo et al. argumentam que, ao aplicar princípios da complexidade, o treinador assume papel de “facilitador de contextos” e não de “ditador de movimentos”, favorecendo a criatividade e a autonomia tática dos atletas.

Além disso, a adoção de modelos híbridos de análise — combinando métricas quantitativas (percentuais de finalização, densidade de rede) e qualitativas (interpretação de vídeo, comportamento situacional) — constitui tendência promissora para os próximos anos, sobretudo na elite europeia,.

Em conjunto, os resultados desta revisão sustentam a hipótese de que o ataque contemporâneo no handebol é caracterizado por versatilidade estrutural, adaptabilidade contextual e inteligência coletiva. A evolução ofensiva das equipes de elite decorre da integração entre decisão situacional, conectividade funcional e análise de dados, pilares de um modelo de jogo mais responsivo e menos rígido. A regra do 7×6, embora tenha provocado rupturas iniciais, consolidou-se como um instrumento estratégico condicionado, enquanto o avanço das metodologias de análise (redes e coordenadas polares) permitiu compreender a dimensão coletiva e dinâmica do ataque.

Assim, a década 2015–2025 marca a consolidação de um paradigma ofensivo pautado na auto-organização, gestão de risco e variabilidade funcional, redefinindo o que se entende por eficácia tática no handebol moderno.

CONCLUSÃO

A análise da literatura sobre a evolução tática ofensiva do handebol entre 2015 e 2025 permite afirmar que o jogo moderno passou a se organizar sob um paradigma de complexidade e adaptabilidade. O ataque deixou de ser concebido como execução mecânica de sistemas fixos e passou a refletir uma inteligência coletiva construída em tempo real, sustentada pela percepção contextual e pela sincronização entre jogadores.

A regra do goleiro-linha (7×6) consolidou-se como um recurso de uso situacional, ampliando a versatilidade estrutural do ataque, mas exigindo planejamento estratégico e domínio emocional para equilibrar risco e benefício. O jogo ofensivo atual se caracteriza por amplitude, profundidade e mobilidade funcional, nas quais a interação entre armadores, pivôs e pontas determina a fluidez das ações e a criação de espaços.

Os avanços metodológicos nas análises de redes e coordenadas polares contribuíram para o entendimento do ataque como um sistema auto-organizado, em que a eficácia depende da conectividade e da qualidade das decisões, não apenas do volume de ações. Essa visão impulsiona uma nova abordagem de treino, baseada em princípios de decisão, variabilidade e adaptação contextual, substituindo modelos prescritivos por estratégias que promovem autonomia e criatividade.

Em termos práticos, o treinador contemporâneo deve estruturar o processo ofensivo com foco em quatro pilares fundamentais: Versatilidade estrutural, adequando sistemas e formações às demandas do jogo; Qualidade da posse, priorizando a eficiência na circulação da bola e o controle de perdas; Gestão racional do risco, utilizando o 7×6 de forma planejada e oportuna; Integração científica, incorporando a análise de desempenho ao processo de treino e tomada de decisão.

Conclui-se que a fase ofensiva moderna no handebol é o resultado da convergência entre análise científica, criatividade tática e inteligência coletiva, configurando um jogo mais dinâmico, imprevisível e sensível ao contexto. O futuro do treinamento ofensivo dependerá, portanto, da capacidade de integrar ciência e sensibilidade de jogo, transformando dados em estratégias e estratégias em comportamento coletivo eficaz.

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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